Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

A Maria de Lurdes

Temos que pensar quais poderão ser as consequências das reformas que o ensino em Portugal atravessa.

Muitos de vocês ainda se devem lembrar da polémica com o exame de matemática deste ano. Parece que lá para o meio havia uma questão que estava ao nível do nono ano. Relembro que os exames nacionais se efectuam no 12º ano para acesso à universidade e conclusão do ensino secundário. Na altura, Maria de Lurdes Rodrigues veio dizer que não era ela que fazia os exames e que qualquer facilitismo não lhe podia ser imputado a ela, Ministra da Educação. Pois.

Os resultados desses mesmos exames começaram a ser revelados ontem e, surpresa das surpresas, verificou-se uma melhoria significativa da generalidade dos resultados. Será que os nossos alunos, de um ano para o outro, ficaram extremamente aplicados e sofreram um boost de inteligência? Duvidoso, digo eu.

De resto, as melhores escolas continuam a ser as privadas. Parece que para garantir um lugar nas melhores faculdades do país e ter um nível de ensino compatível com esse objectivo, temos que pertencer a uma qualquer elite...

Desenganem-se aqueles que pensam que esta ambivalência se fica pelo secundário. Se bem que depois é diferente. Como? A minha experiência com o ensino superior mostrou-me duas vertentes. Se, por um lado, os alunos mais fracos (que os há; gente que mal sabe escrever obtém licenciaturas ao fim de 3 ou 4 anos) vão passando, desde que tenham alguma paciência e muito poder de encaixe, os melhores serão classificados consoante frequentem uma faculdade pública ou privada.

Tive uma professora que dava notas baixas, corria turmas inteiras a 10, 11 e 12 e lá dava um 15 ou um 16 para disfarçar. Toda a gente sabia que era assim e não havia muito a fazer. Até que descobrimos que essa mesma senhora dava aulas na Católica e aí já não se coibia de dar 19 e 20 a uma série de alunos. A questão que tem que ser colocada é a seguinte: Será que os alunos da Católica eram assim tão diferentes de nós? Será que numa turma inteira não haveria ninguém merecedor de um vinte?

Só pode haver duas respostas a este tipo de interrogações:

 

- Os alunos da Católica são aqueles que frequentavam privadas no secundário e estão habituados à exigência do ensino e a obter classificações elevadas, ou

 

- É a Católica! Os pais não pagam balúrdios para os filhos saírem com média de 13 e para não ocuparem os melhores cargos que o país tem para oferecer.

 

Se calhar, o mais correcto é uma mistura destas duas ideias.

 

Mas a coisa não fica por aqui. Parece que agora os senhores do Ministério da Educação, os mesmo que diziam que não andavam a facilitar a vida a ninguém, querem acabar com os chumbos no ensino obrigatório. Os parâmetros desta ideia ainda permanecem por explicar.

 

A consequência imediata disto só pode ser uma. De facto, teremos muito mais pessoas com o 12º ano. Mas depois, se calhar, ter o 12º ano vai deixar de ter qualquer tipo de importância.

Depois, se calhar, as pessoas a quem foi facilitada a vida académica até então, aproveitam os exames nacionais facilitados e entram em faculdades facilitistas. Alguns vão chumbar repetidamente quando aí chegarem, contribuindo para os cofres do estado com as propinas equivalentes aos anos que chumbaram, outros vão passando até adquirirem o canudo e estarem prontos para engrossar a força trabalhadora.

Mas que força trabalhadora será essa? Porque, se calhar, estamos a falar dos líderes, dos administradores, dos gestores de amanhã. 

Será que queremos que os nossos destinos sejam decididos por uma data de gente a quem a vida toda foi entregue numa bandeja?

Se calhar não. 

 

 


publicado por A Mona Lisa tinha Gases às 23:54
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12 comentários:
De Lourencinha a 31 de Outubro de 2008 às 08:57
Pois, olha que eu andei na Católica... há já alguns anos (a bem dizer) e para tirar um 10 tinha que me "virar do avesso". Como não me considero burra.... o que eu quero dizer é que a minha vida não foi facilitada só pelo simples facto de ter tido oportunidade de estudar na Católica.

Beijinhos


De A Mona Lisa tinha Gases a 3 de Novembro de 2008 às 10:14
Pronto, ainda bem que as coisas não são assim tão lineares! É uma universidade como todas as outras, então.
Beijinhos


De Gugas a 31 de Outubro de 2008 às 09:07
Colocar este tema para se poder comentar em apenas 4300 caracteres é, no mínimo , uma provocação...mas enfim! Quanto à Milú e ao seu "caniche" de pêlo cinzento (adivinhem de quem estou a falar!), nem vale a pena tecer qualquer comentário, porque nenhum deles o merece! Quanto aos exames nacionais, foi assim com a Matemática, mas não com o Português, onde a média desceu a nível nacional. Neste exame, além de sair matéria não dada, ainda houve perguntas de múltipla resposta onde curiosamente todas as respostas estavam erradas! Espanta-me como é possível que a comissão de exames, que trabalham nisto o ano inteiro, se permitam a gralhas destas !!! Será este a forma encontrada para contrariar a imagem (?) criada com o exame de matemática???...Num país (ou melhor, neste "Lugar mal frequentado") onde a Saúde e a Educação estão como estão, não vamos longe! Ai não vamos não!


De A Mona Lisa tinha Gases a 3 de Novembro de 2008 às 10:15
Se calhar era para compensar o facilitismo da matemática! Assim ninguém fica muito mal habituado! :D
Que se pode dizer? Parece que metade dos trabalhadores deste país anda a dormir...


De _^ANGIE^_ a 31 de Outubro de 2008 às 10:24
APOIADO! VOTO EM TI!!!! lololol
Agora fora de brincadeiras. Concordo plenamente contigo. Acho que o governo anda a tapar o sol com a peneira nestas e em muitas outras questões: como o desemprego, o defice orçamentale por aí a fora...
É rídiculo fazerem isto só para subir os ranquings...

Beijocas


De A Mona Lisa tinha Gases a 5 de Novembro de 2008 às 11:51
O pior são as implicações que isto pode ter! Populistas, pá!


De Ros a 31 de Outubro de 2008 às 12:57
99,9999% dos alunos que saem (ou entram) na Católica têm que saber acompanhar uma exigência que existe e que não é um mito. Não é assim tão linear os alunos da Católica concluirem com médias altas, muito pelo contrário. Provavelmente essa professora foi um mau exemplo prático para se tentar entender o que se passa. Sem dúvida que se voltou a dar muita importância às faculdades onde se tira um curso. A experiência, competências e perfil já são fatoas de um bolo numa sociedade cada vez mais competitiva e elitista. A Católica continua a ser uma garantia de futuro e progressão profissional. Lá terão o seu mérito de ensino que a restante grande maioria não tem. Não se trata de diferença nos alunos, mas no ensino.


De A Mona Lisa tinha Gases a 5 de Novembro de 2008 às 12:09
No entanto os professores que ensinam na Católica, na sua grande maioria, também ensinam noutras faculdades. Se os professores são os mesmos como é que o ensino é diferente? Sei que é o concelho pedagógico que aprova as matérias a dar em determinada cadeira mas o esboço inicial dessas matérias é da competência do professor. Ou será que os professores se esforçam mais por ser a Católica?


De guiga a 31 de Outubro de 2008 às 15:05
Tens razão em tudo o que dizes! Penso exactamente como tu!
E não, não quero que o meu país fique nas mãos de gentinha elitistas, com pouco ou nada na cabeça. Ou menos gente como eu, que sempre frequentou o sistema educativo público - E tenho muito orgulho nisso - , mas que, infelizmente, contrariamente a mim, não batalharam nada por isso! Eu sim, batalhei! Fiz os meus exames! Paguei as minhas propinas e posso dizer que mereço bem esta licenciatura!
*.*


De A Mona Lisa tinha Gases a 5 de Novembro de 2008 às 12:12
Sabes nini, na verdade eu também fiz todas essas coisas mas continuo a achar que tirar o meu curso foi demasiado fácil! Eu não estudo para nada desde o segundo ano da licenciatura. Não vou às aulas convenientemente desde o primeiro ano. E estou quase a acabar um mestrado sem o mínimo esforço (pronto, tirando os trabalhos que ocupam muito tempo)! Ou o ensino é mesmo facilitista ou eu sou um génio! (not...)


De _Samuel a 31 de Outubro de 2008 às 17:40
Nem sei por onde começar. mas vejo-me na obrigação de comentar este post dado que estou este ano a terminar o ensino secundário e estou a sentir já na pele algumas destas reformas. felizmente tenho a sorte de estar naquela que é, na opinião de muitos, a melhor escola secundaria do Alentejo e Algarve , escola secundaria de Odemira . Onde sou aluno de uma professora, Paula Canha, distinguida com o prémio de mérito inovação, a qual lidera o nosso clube de ciências , que já levou muitas vezes o nome de Portugal ao pódio em feiras de ciência a nível internacional, o que levou à visita da ministra e do Sr. Valter lemos por duas vezes. E onde quero chegar com esta conversa toda? Que a ministra não sabe o estado das escolas secundarias. E nem sempre a culpa é dela. No nosso caso é do Director Regional de Educação, que manda todas as verbas para as Escolas de Évora (as cunhas falam mais alto). Foi possível constatar isso quando ela chega a nossa escola acompanhada do Sr. . director regional de educação e lhe pergunta porque é que escolas como a minha tinham falta de uma pintura há anos, tinha um laboratório cujo chão estava completamente partido há anos, o material dos laboratórios era o mínimo e tudo o que tínhamos a mais tinha-nos sido oferecido pela Câmara Municipal. A cara de atrapalhação do senhor há -de ficar-me para sempre na memoria!!

A conversa já vai longa e ainda muito há para falar. Na verdade eu não sei bem o que é o facilitismo porque nunca o senti na minha escola, mas a verdade é que quando chegaram os exames de biologia do ano passado todos nós ficamos com a sensação "Os nossos testes também deveriam ser assim tão fáceis ". Acho que isto diz alguma coisa.

O ensino privado continua a ser muito melhor, e pelo andar da carruagem há -de continuar a ser, do que o ensino publico, mas a verdade é que todos os meninos, privada e publica, vão para universidades publicas (principalmente na minha área dado que a única boa universidade de ciências é o Egas Moniz que se paga a peso de oiro, e depois o Piaget na área da saúde ). Ora isto constitui uma desvantagem para a gentalha do publico e há -de continuar a acentuar-se muito. Com um ensino básico e secundário facilitado como o estão a tornar, como é que algum aluno saído do publico vai conseguir competir com um aluno saído de um secundário privado? Nunca!

Para finalizar (que isto já lá vai tão longo) gostava só de acrescentar a teoria do meu professor de matemática , "O objectivo da ministra é o mesmo que Salazar. Formar gente ignorante, para que não possam ripostar as medidas do governo , nomeadamente as dela!"

Enfim, coisas da vida!


De A Mona Lisa tinha Gases a 5 de Novembro de 2008 às 12:18
O teu professor de matemática é capaz de ter alguma razão!
Felizmente ainda há escolas que primam pela excelência do ensino. Mas se depois acontece, como no teu caso, verem exames nacionais que só dão vontade de rir e entrarem em faculdades que se preocupam mais com as propinas do que ensinar as pessoas a pensar...


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